sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Mãe louca

Por algum motivo do destino que eu não consigo explicar, dou aula bem perto de 4 shoppings: D&D, Morumbi, Iguatemi e Ibirapuera. Isso significa que quando quero comer algo rápido ou fazer hora em intervalo de aulas, vou a um desses shoppings. Sexta-feira é dia de Ibirapuera, e lá fui eu comer uma torta mousse da Ofner pra me dar energia para a aula. Sentei numa mesinha e, ao meu lado, uma menina de uns 5 anos tomava sorvete e a mãe observava. Do meu outro lado, uma menininha muito esperta de no máximo 2 anos e meio, com a mãe e a avó. A mãe dessa menininha é mais velha, com certeza mais de 40 anos. E lá estava eu, comendo meu doce, quando a menina de 5 anos começa a falar comigo. Pergunta meu nome, se tenho olhos azuis, diz que meus olhos são feios e que ela queria um pedaço do meu doce. Ok, coisa de criança. Aí a menina me pergunta:

- Você é filha dessa mulher?

"Essa mulher" é a mãe da menininha esperta. Eu respondi que não, que minha mãe estava no trabalho dela. Nisso, a mãe da menina de 5 anos fala, alto, pra quem quisesse ouvir:

- Olha, uma coisa que eu acho ridícula é mulher que tem filho depois de velha. Filho a gente tem que ter nova. Que nem eu. Filho de mulher velha não presta.

Ela falou isso do nada, sem nem olhar pra mim. Eu demorei uns segundos pra assimilar que picas aquela louca estava falando. Claro, ela estava criticando, em alto e bom som, a mãe da menininha esperta. E eu fiquei completamente sem reação. Demorei pra acreditar que alguém fosse capaz de fazer uma crítica assim, gratuita, absurda e sobre alguém que nem conhece sobre algo que diz respeito somente à outra pessoa. Afinal, quem cria a menininha esperta? Quem lava roupa, dá carinho, dá comida, leva pra passear e limpa a bunda da petiz? É a mãe dela, certo? Se é mais velha ou mais nova, o que interessa é se ela é uma boa mãe. Se ama a filha. É só isso que interessa.

Continuei sem reação até a menina de 5 anos derrubar sorvete na roupa. A mãe louca levantou e foi limpar a menina, que se encolheu assustada e disse:

- Foi sem querer! Não briga comigo!

A mãe louca riu e disse, alto novamente:

- Não vou te bater!

O que se conclui? Que a menina de 5 anos deve levar uns bons cascudos da mãe louca. Que é nova. Que acha que mães novas são melhores que mães velhas.

Acho que o mundo está cada dia mais bizarro.


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Depois da aula voltei ao shopping pra comer um lanchinho. Do meu lado sentou um menininho com os pais. O menininho ficava me olhando, olhando e começou também a conversar comigo. Crianças em geral vão demais com a minha cara. Sempre foi assim e eu nunca entendi o motivo. Alguém? Alguém? Bueller?

5 comentários:

bjomeliga disse...

As crianças sempre me amaram também, embora eu não tenha nenhuma simpatia por elas. E isso me assusta muito nesse momento.

Pôlo disse...

Hahha, meu, se vc fizer 100 vezes a piada do "Alguém? Bueller?" eu vou rir as 100 vezes.... : P

Mas criança é um bicho intrigante. Eles absorvem muito rápido o que "dá certo" e o que "dá errado" pra conseguirem o que querem e elas acabam sendo reflexo imediato das atitudes dos pais para com o mundo.

Se uma criança de 3 anos vê o pai desembalando um alfajor e jogando o papel na rua, o que vc acha que ela vai entender? "Ah, tá, então é assim que faz, a gente tira o papel e solta da nossa mão."

Ou o clássico dilema da saúde: "Filho, vc precisa comer salada."

Aí vc olha o prato da mãe....CADÊ A SALADA?????

Mega FAIL.

Caco disse...

Acho que é porque você deve ter um rosto child-friendly que as faz se aproximar. Diferente da minha, que as afasta quilômetros. Mas pelo menos não bato nas pobres, né, tal qual certas mães (jovens) por aí.
bjs

Paulo Tiago disse...

Eu sempre faço a piada do Bueller dando aula, e é claro que os panguás que são meus alunos não entendem. E olha que eu faço no áudio original, 5.1: "Anyone? Anyone?".

Agora, quer um antro de mães loucas? Te recomendo a S.H.B. Colégio Renascença, que tem mães que ficam putas porque o filho quebrou o pé e acham um absurdo ter que ir levá-lo a ou buscá-lo em alguns lugares; temos mães que largam os filhos sozinhos em casa no dia do aniversário deles pra saírem com o namorado; mães que deixam uma filha depressiva sozinha em casa, no 4º andar, sem nada na janela, só pra ver ela se jogar numa segunda-feira e não morrer por obra de Deus; mães adotivas que escondem do filho de 16 anos que ele é fruto de um adultério de uma ricaça que o rejeitou, por medo de perder o casamento. Vai lá, o shopping vai parecer fichinha.

Ah, sim: pais deveriam ter um tipo de Licença-Paternidade que poderia ser revogada e eles teriam que voltar pro CFPM, mas sem poder pular o curso e sem molhar a mão do examinador na hora da baliza.

Paula Santomauro disse...

Vi vc no meu e vim no seu!

Por coincidencia (ou nao) eh mesmo esta coisa de bizarrice e crueldade que esta me pegando hoje...

E agora?

Passarei mais vezes!!!

Nice to meet you ;)