segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sábado e domingo no Rio, mais precisamente em Niterói. Nem o inferno estava tão quente. O destino certo: praia, claro. Eu sou apaixonada por Itacoatiara, uma das praias oceânicas de Niterói. Essa praia é pequena, linda, limpa, tem uma pedra enorme onde você pode subir, caminhar e apreciar o mar. É algo que eu amo fazer, e ali a vista é linda. Tudo seria lindo, não fosse a volta dessa praia para a casa de meu digníssimo namorado. Vamos de ônibus e eles estão sempre cheios. Sábado decidimos pegar o ônibus e ir até o ponto final, na praia de Itaipu, para fugirmos da muvuca da volta da praia às 6 da tarde.

Itacoatiara e Itaipu são próximas, mas o público de ambas são completamente distintos. A primeira é tranquila, não há alto-falantes nem quiosques, é algo mais, er... de raiz. Ainda que a chamem de "praia dos playboys", é o tipo de praia que eu gosto. Pela tranquilidade. Itaipu tem a orla bem maior, acesso mais fácil e é ponto final de algumas linhas de ônibus. Ou seja, é bem popular. BEM popular. Incrivelmente popular. Daquele popular em que o funk está nos alto-falantes, as meninas usam "pílsim" de pingente pendurados nas barriguinhas um tanto quanto proeminentes e as pessoas, no geral, são "loud". LOUD. MUITO LOUD. Eu tenho muita aflição de quem fala gritando, ainda mais dentro do ônibus, que é um ambiente fechado e pequeno. É um tal de "JÉFISSO VEM PRA FRENTE" ou "LUZILENE SENTA AQUI", sendo que Jefferson e Luzilene estão ali, pertinho.

Sábado a experiência que tive voltando de Itacoatiara e passando por Itaipu foi daquelas realmente marcantes. Primeiro que a entrada de Itaipu é um descampado enorme, cheio de ônibus e filas. Filas intermináveis de pessoas pra embarcarem. Nós estávamos já dentro do ônibus, então permanecemos sentados. Quando as primeiras pessoas entraram, correram pros assentos reservados aos idosos e deficientes gritando "EU nÃO VOU LEVANTAR, PODE PEDIR QUEM FOR QUE EU NÃO LEVANTO". Eram duas crianças. Seguidas dos pais, que diziam "É ISSO AÌ, PODE SER VELHO E O QUE FOR, VOCÊS NÃO LEVANTAM". Classe, né. Eu sou contra a reprodução humana nesses casos, mas não adianta. Os sem-educação se reproduzem, muito. E passam a falta de educação de geração pra geração.

O ônibus lotou, muito. Em Niterói, todos os pontos de ônibus têm um fiscal. Ou seja, se o motorista passar pelo ponto direto, sem parar, deve levar a maior carcada. Então todos param, a não ser que Newton se materialize dizendo que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Nosso ônibus estava cheio, mas ainda cabiam pessoas penduradas nas janelas, então o motorista parava em todos os pontos. Eu entendo, ele TEM que parar. É a obrigação dele. Mas o populacho não entende. Jamais. E muitas, muitas pessoas no ônibus começaram um coro super animado dizendo que iam comer o cu do cobrador, o cu do motorista, e por aí afora. Niterói também tem muitos morros e muitas curvas, e avenidas estreitas em muitas partes. Se o motorista corre, pode bater - e com certeza vai bater. A direção não pode ser tão selvagem, embora, ao meu ver, ainda o seja. Mas não para a patuléia daquele fatídico ônibus. Porque a turba começou a gritar, além da musiquinha linda sobre o destino anal do motorista, "VAI MOTORISTA FILHO DA P...", "CORRE DESGRAÇADO CORNO, TÁ ACHANDO QUE ISSO È PASSEIO?".

Meu rosto foi se contorcendo de dor, susto, indignação. Fiquei, mesmo, com pena do motorista. Os xingamentos foram constantes, sem propósito algum e muito pesados. E, quando davam uma trégua nos xingamentos, faziam um coro de algum funk proibidão, batendo no teto e nas laterais do veículo. Eu acho que todos têm direito a um transporte coletivo decente e eu SEI que em Niterói, no Rio ou aqui em São Paulo, isso está longe de acontecer. Mas NADA, absolutamente NADA justifica essa falta de educação. Pode vir pra cima de mim com discurso de que "eles não tiveram exemplo" ou "eles não tiveram educação", eu mando à merda. Sério. Eu nunca tive carro, eu sempre peguei ônibus e eu SEI o que é a realidade do transporte coletivo, não só aqui. E eu SEI o quanto as pessoas estão cada vez mais mal-educadas e sem noção.

É por isso que eu detesto multidões e aglomerações de ceresumanos. Porque o aglomerado de ceresumanos não é um monte de indivíduos juntos, dividindo espaço. É, na verdade, um organismo só. E um organismo que se acha corajoso. E faz merdas, como xingar motoristas que só estão trabalhando, como ensinar aos filhos que não se deve ceder o lugar a quem o banco é de direito, como xingar uma menina na faculdade de "puta" porque ela foi à aula usando um vestido curto. A multidão tem sempre uma força única e coesa, e nunca para o bem. Toda vez que eu vejo uma multidão se manifestar, é para agredir, xingar, impor suas merdas de músicas ruins aos ouvidos de quem está quieto.

Falta de oportunidades na vida nunca serão justificativa pra falta de educação. E e eu acho que o que mais falta nesse mundo, que está completamente virado do avesso, é educação. Basta raciocinar um pouco além. Basta observar mais. E você, mesmo que tenha nascido no meio de uma favela lá longe, saberá que xingar, gritar, barbarizar, nada disso te levará a nada. Só vai piorar o mundo que já não anda muito bem. Mas as pessoas sempre preferem o caminho torto. E assim, seguimos. Com idosos e grávidas sendo desrespeitados, com gente gritando em lugares públicos, com alunas sendo expulsas da universidade por "indecoro".

Que me desculpem os entusiastas, mas o povo brasileiro, na maioria, é bem pau no cu. E só.

7 comentários:

Aimée disse...

eu tenho tanta raiva de gente que não entende as coisas. eu não devia, por um monte de motivos bons, mas eu tenho.

Pri S. disse...

Gente que fala gritando. Gente que liga o celular pra ouvir música e esquece daquele pequeno detalhezinho chamado fone de ouvido.Gente que quer se dar bem a todo custo, mesmo que seja às custas de uma grávida ou um idoso. Gente sem senso de cidadania. Gente que fuma na cara dos outros. Gente espaçosa e sem noção! E uma tal universidadezinha por aí que pune ao invés de proteger, estimula a barbárie e o preconceito ao invés de ajudar a formar adultos conscientes. Tudo tão deprimente... Às vezes eu tenho nojo de gente. Não deveria, mas tenho. Parabéns pelo texto.

Mandy disse...

Nossa moça, complicado esse fim de semana no RJ... =/

E é foda mesmo, multidoes cansam à distancia, muita gente falando ao mesmo tempo me irrita de uma forma! E concordo contigo qdo vc diz q as pessoas estão cada vez mais sem educação, e concordo tb qdo vc diz q tem que ir à merda quem disser q eles nao tiveram educação e blablabla. Esse tipo de educação vem de casa, e se 2 mal educados se reproduzem, a chance de sair um educado, ou ao menos decente, é minima, não é?

concluindo, otimo texto!

Paloma disse...

aff! visão do inferno esse busu, hein?

Carol Textor disse...

Ai, adoro seus posts. Como vc escreve bem!! Consegue passar muito sentimento no texto. A gente sente o que vc tá sentindo.
E nesse texto super senti a vibe dos infernos desse ônibus.
ODEIOOOO povão

Paulo Gallian disse...

Gostei pra caramba do texto, Cami!

E até faço uma outra relação baseado no que vc disse aqui:
"Falta de oportunidades na vida nunca serão justificativa pra falta de educação."

Acredito que a própria atitude dos sem-educação interfere na *qualidade* das oportunidades que eles terão na vida.

Xianey disse...

Passei minha infância inteira tendo que aturar esses onibus lotados com nego batendo no teto, entrando pela janela e tocando o diabo, quando ia pra praia. Minha mãe fazia questão de ir, mesmo com todo o perrengue. Depois de velha, fui me afastando da praia por conta desses problemas. A relação custo benefício não compensa.

Fora que quando eu trabalhava na Barra e o povo voltava da praia no horario q eu tava saindo do trabalho, eu tinha que aturar familia com 8 filhos besuntados de areia em cima de mim e me pisando num onibus cheio.

Como é bom morar numa cidade sem praia nessas horas.

Enfim, tudo isso pra dizer que as pessoas mal educadas de reproduzem em progressão geométrica e infelizmente não vejo esperança.

Beijos, gata!