segunda-feira, 10 de maio de 2010

Mamãe, mamãe

Quando eu tinha meus 20, 21 anos, lembro de ter uma visão de minha mãe quase semelhante à de uma heroína. Achava que ela era a mulher mais forte e batalhadora do mundo. Achava que ela fazia, e muito bem, o papel de mãe e pai. E, apesar de enxergar defeitos, achava que eles se restringiam ao fato dela ser uma pessoa de gênio forte.

Quando comecei meus questionamentos internos a respeito do meu pai, comecei a enxergar que talvez as coisas não fossem tão belas quanto eu achava. E aí meus conflitos com minha mãe começaram a crescer e cresceram muito. Era difícil para mim enxergar os defeitos do ser humano mãe. E, para ela, era difícil ver que eu estava me tornando uma pessoa diferente dela. E que questionava a postura dela. Era difícil para ela aceitar minhas escolhas, minhas roupas, minha vida. E seguimos alguns anos enfrentando uma a outra. Houve a fase em que eu quase me tornei mãe da minha mãe, e isso foi bem incômodo, mas nem entrarei nessa parte da história.

Aí, há dois anos, toda a história da revelação sobre minha paternidade começou. E foi ali que minha mãe se desnudou para mim. Foi ali que eu comecei a enxergar minha mãe de verdade. É muito, muito difícil ter que enxergar cruamente que aquela pessoa que devia zelar por você sempre teve atitudes egoístas, atitudes onde ela não estava pensando somente em você, belo rebento. É dolorido enxergar, em vez da mãe, o ser humano falível e cheio de inseguranças e segredos e atitudes incompreensíveis. Eu passei muitos maus bocados com toda essa história e esses maus bocados não se referiram somente à descoberta de que meu pai biológico era aquele homem que eu conhecia e detestava. Os maus bocados também se referiram a essa descoberta de que minha mãe tinha cometido erros que interferiram de maneira gritante no rumo da minha vida, da minha personalidade, da minha auto-estima.

Hoje em dia acho que a minha relação com minha mãe está madura. Acredito que foi preciso tudo aquilo para que se chegasse ao que temos hoje: eu não tenho raiva e nem mágoa. Eu me esforço muito para que tenhamos uma relação harmoniosa. E sei que ela faz o mesmo. Eu sei que ela errou e eu não caio na frase mais idiota do mundo que diz "não devemos julgar". Essa frase me dá engulhos. Viver é julgar, minha gente. A questão é o que você fará com o seu julgamento. Você vai levar a sério? Ou vai ponderar? Eu optei pela segunda opção. Porque eu sei que ela cometeu erros, eu cometi erros, e aquela consciência de que antes de mãe, ela é um ser humano falível só me ajudou ainda mais nesse processo de aceitação. Hoje em dia, onde estou cada vez mais próxima de ser mãe (estou longe de estar grávida, mas vou me casar (ohhhh!) e filhos estão nos planos num futuro ainda distante), sempre penso no quanto deve ser difícil ser mãe. O quanto deve ser difícil pensar sempre no filho e em você mesmo e chegar a uma solução boa para ambas as partes. Eu acho que tudo deve ter sido muito difícil para a minha mãe. E agora eu só quero que ela tenha paz. E que ela possa curtir a meia-idade, a velhice e os futuros netos sem culpa alguma. Ela continua sendo a batalhadora de 10 anos atrás. Mas é bom que eu não tenha mais aquela visão romantizada da minha mãe. Nem a visão dos tempos difíceis. Acho que hoje nos enxergamos como realmente somos.

Uma vez me disseram que amar é saber conviver com os defeitos do outro. Eu acho que essa é uma das grandes verdades universais.

5 comentários:

Luiz disse...

preciso de aulas de ingles please i neeeeed tks fraguas_sapmm@hotmail.com

Patricia Scarpin disse...

Quando fiz terapia (há uns 4 anos, mais ou menos) uma das coisas que a terapeuta me dizia era que eu tinha de entender que o meu pai é um ser humano como eu, que comete erros, faz escolhas erradas... Eu tinha de tirá-lo do pedestal. E realmente, isso foi difícil de fazer mas quando consegui me ajudou um bocado.

Jan disse...

Te achei pela Cris! E pasme, me identifiquei MUITO com esse teu post... Como vai mudando a forma que enxergamos nossos pais... Eu passei exatamente pelo que você passou, exceto nessa parte do pai... Na real eu ainda não consigo enxergá-lo de uma forma madura, mas consigo conviver com ele. Enfim... amadurecer é difícil... bjs.

Nilo Sérgio disse...

Você com sua mãe e eu com meu pai... Grosso modo eu tive 3 fases com meu pai. Na infância/adolescência ele me falava de honestidade e outras virtudes, e era um grande herói. Depois, jovem, me rebelei contra a sociedade e contra ele, vendo-o reacionário (na verdade estava mais pra anarquista e liberal). Mais tarde, casado e com minhas filhas, me divertia entrevistando-o em vídeos de família, e o via como você vê sua mãe, um batalhador com imperfeições, buscando me harmonizar com ele. Então ele morreu. Hoje vejo que perdi alguns anos de convivência. Pratico muito o que ele ensinou, tenho muitas saudades, mas por ser pai, tenho que enxugar os olhos e olhar a quem precisa um pouco de mim.
bjão
Tá na hora da gente fazer uma constelação ou um processo hoffmann...

Beth Blue disse...

sempre penso no quanto deve ser difícil ser mãe. O quanto deve ser difícil pensar sempre no filho e em você mesmo e chegar a uma solução boa para ambas as partes. Eu acho que tudo deve ter sido muito difícil para a minha mãe. E agora eu só quero que ela tenha paz. E que ela possa curtir a meia-idade, a velhice e os futuros netos sem culpa alguma. Ela continua sendo a batalhadora de 10 anos atrás. Mas é bom que eu não tenha mais aquela visão romantizada da minha mãe. Nem a visão dos tempos difíceis. Acho que hoje nos enxergamos como realmente somos.

Que bom que você já tem essa sabedoria...eu mudei muito depois de virar mãe, e passei a entender minha mãe muito melhor! Pena que ela morreu antes de eu ter filho.

O que a gente não pode esquecer é que mãe também é gente...e gente comete erros. A gente sempre faz o melhor que pode!