sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Hoje eu vim aqui abrir meu coração

Eu amo o que eu faço. Dou aulas de inglês por amor mesmo. Dá trabalho, é cansativo, mas eu acho o máximo quando vejo resultado, quando vejo alunos aprendendo, melhorando, evoluindo. Eu gosto de trabalhar focada em resultados porque é aí que está a graça do que eu faço. Não é a camaradagem entre aluno e professora que me atrai, eu já tenho muitos bons amigos e não consigo dar conta de mais. Eu realmente não ligo muito para essa coisa de agradar a todos e todos me agradarem que é bastante comum na minha profissão. Eu quero é ver nêgo chegar pra mim falando que aprendeu. Que sente que melhorou. Que nem viu a hora da aula passar.

Eu adoro dar aulas para grupos. É muito mais dinâmico e divertido do que aulas particulares onde fica-se à mercê do humor do aluno. E aí temos aquele velho dilema: dar aulas particulares dá muito mais grana, mas é instável. Dar aulas para grupos é mais interessante mas trabalhar em escolas é quase sinônimo de escravidão. Aí eu fui lá e abri a minha empresa. De aulas em empresas. Só que para tocar as coisas eu tive que dar menos aulas e o óbvio aconteceu: comecei a sentir falta e entrei em crise. Até escrevi sobre isso aqui. Tentei achar saídas onde eu pudesse dar aulas para grupos e manter meu negócio. A saída veio em duas grandes escolas me chamando para processo seletivo. E eu optei pela mais antiga e tradicional pensando "se é pra ir, que seja na maior".

Acho que eu comecei a me enganar aí. Empresa no ranking das 100 melhores empresas pra se trabalhar no Brasil é bastante atrativo, né? Empresa com o seu ex-tutor-do-CELTA-atual-amigo lá é mais atrativo ainda - porque trabalhar com ele é um sonho. O cara é só um dos mais fodões da minha área, é claro que eu optaria pelo lugar onde ele está. Sem contar o nome da escola, que abre portas. Abre sim. As pessoas te olham diferente quando você fala que trabalha lá. E para lá eu fui.

O período de treinamento já deu indícios de que tudo seria muito difícil. Eu persisti. Há uma unidade a um quarteirão da minha casa, não havia vagas, me mandaram para uma unidade onde a gerente dá medo. Não foi legal. Aí fui contratada de fato pela unidade que fica em outro município. Eu não tenho carro. Vou de ônibus todos os dias estrada afora. Trabalho num lugar lindo com pessoas amigáveis e com uma gerente que tenta fazer o melhor.

Mas sempre há o mas. No meu caso, há muitos "mases". Achando que turmas de adolescentes não seriam tao insuportáveis, achando que turmas de adolescentes poderiam ser divertidas e querendo uma grande mudança e novas experiências (mais de 8 anos dando aulas para executivos dá um certo cansaço) eu disse sim. Sim, sim, sim, vamos lá, I embrace changes. NOVE turmas de aproximadamente VINTE alunos. Apenas uma turma de adultos. O resto é só de pirralhos. Mimados. Três turmas são em ESCOLA NORMAL. Eu não pensei que teria turmas em escola normal.

Peço que vocês voltem no tempo comigo. Eu tinha 19 anos e passei em Pedagogia na USP sem estudar. Nunca abri um livro. Passei. Beleza que Pedagogia nem é isso tudo na concorrência mas eu tava lá, na USP, aquele lugar onde só tem gente metida a besta. Quatro anos de magistério não foram suficientes para me convencer de que dar aula em escola é uma BOSTA. Bosta fedida. Entrei na faculdade e a ficha caiu: cara, dar aulas em escolas fede. É ruim. É pra quem ama mesmo e eu não amo isso. Abandonei a faculdade e nunca mais voltei.

Muitos anos depois, cá estou eu, tentando me encontrar, tentando pertencer, querendo ter colegas de trabalho para fofocar durante o intervalo de aulas. Quando eu dei aulas numa outra grande escola de inglês eu tinha isso. Adorava. Estava sentindo falta de pertencer a um lugar maior. E fiz essa escolha. Onde fui parar? Fui parar dando aula em escola normal, aquilo que eu não queria fazer, não quero fazer, aquilo que eu detesto. Os alunos mal olham na minha cara. Eles não querem fazer nada. Eu não vou ver resultado nenhum no meu trabalho. E não me venham dizer que conseguirei tocar o coração de um deles e isso fará valer a pena. Bullshit. Vai valer a pena todo o stress pelo qual estou passando? Sinto dores no corpo diariamente. Choro todos os dias, praticamente, de desespero, de "o que foi que eu fiz?".

Dou muitas horas de aula por semana, longe, para adolescentes ingratos que eu apelidei de "little fuckers" - se eu não puder fazer piada, aí fodeu tudo mesmo. Little fuckers são ingratos, ficam contando o tempo da aula pra ir embora, falam mal de você na sua cara. Eu já dei tanta comida de rabo em duas semanas que olha, nem sei. Já falei, inclusive, que eles nem precisam gostar de mim porque minha vida é super ok sem gostar deles também. HAHAHA, olha a que ponto cheguei. Sabemos que pra alguém que ama o que faz isso é mentira, né. Eu quero que me meus alunos gostem de mim e da minha aula e aprendam e saim satisfeitos sem ver o tempo passar.

E isso que nem comecei a contar que totabilizo a insana quantia de mais de 150 alunos adolescentes e que em 2 pontos do semestre eu terei que ligar para todos os pais e mães deles. Vocês não imaginam a carga extra de trabalho pedida por essa escola.

E eu assumi um compromisso por um semestre. Não posso sair porque não quero queimar meu filme. Minha coach e meu amigo de lá me falam que tenho que fazer vista grossa. Eu sou CDF. Eu não sei fazer vista grossa! Eu sou nerd, gente, nerd quer que o trabalho saia lindo. Não é da minha personalidade fazer vista grossa. Ontem eu fiz vista grossa e saí da aula com o coração doendo. Tive dor de cabeça o dia todo - e estou com dor até agora. Nenhum professor que trabalha comigo está feliz, ninguém gosta de dar aulas lá, só reclamam. Mas ninguém pede demissão porque todos pensam que se lá é daquele jeito, em outros lugares é pior ainda. Eu discordo.

É muito difícil admitir que apesar do tamanho da empresa, apesar de tudo, apesar dos pesares, eu acho que não fiz a escolha certa. Eu não lido bem com insatisfação. Estou insatisfeita? Eu faço algo pra mudar. Sempre deu certo, essa é a primeira vez em que deu errado. Tenho que aguentar esse semestre.

Já estou na contagem regressiva.

10 comentários:

Renata disse...

:´(

tô mandando o comentário por e-mail.

crankytown disse...

Hang in there! ;*

- Yael

crankytown disse...

Hang in there! ;*

- Yael

Isadora disse...

eu já fui professora e, por isso mesmo, não consigo pensar em uma profissão mais bonita, e que mais precisa de amor. admiro muito quem consegue sobreviver aos perrengues e continua amando ensinar.

Simone Westerduin disse...

Eu já fui professora e aprendi a fazer vista grossa, esperei meu contrato de 1 ano acabar e me joguei pra outras bandas. Não dá!

Patricia Scarpin disse...

Querida, eu saí da consultoria em que trabalhava pq o chefe de lá me humilhava e chegou ao ponto de jogar o RG dele no meu rosto. Vim pra onde estou hoje e te digo: tem como ser PIOR sim. Tive um chefe pior. Hoje estou com um que é ótimo, mas agüentei o inferno na terra por 5 anos.
Não desista! Sei que a minha história demorou para melhorar, mas eu quero mesmo te fazer ver que pode piorar, sim, mas tb pode melhorar.
xx

Dáfni disse...

Camila, entendo perfeitamente o que escreveu e o que está sentindo. Eu fiz Física porque queria ser pesquisadora, mas aqui no Brasil pesquisa básica se faz em universidade, e aí me formei (10 anos entre graduação, mestrado e doutorado) pra fazer concurso em federal. Passei, e hoje sou professora numa federal, como sempre sonhei.

Mas... fica muito longe de onde está minha família. Vim pra cá pensando que ia mudar o mundo, construir uma nova universidade. E depois de 5 anos eu vejo que estava completamente iludida.

Comecei como professora aqui. Dediquei um semestre inteiro para a docência, para uma turma. Peguei gosto pela coisa. Mas como vc, dou aula pra quem não quer saber daquilo que eu estou ensinando. Primeiro, matemática, que foi o concurso que eu fiz. Ano passado consegui me transferir para a física, minha área, e achei que seria o máximo.

No semestre que passou, estava super empolgada em dar aula de física - minha estréia. E estava indo tudo bem, até que uns FDP's metidos a espertinhos começaram a me incomodar. E me incomodaram tanto que eu emagreci, coisa que não posso, e fiquei frustrada. Apesar de ser apenas alguns alunos, e a outra turma ser uma turma muito legal de se trabalhar, eles acabaram comigo.

Por isso entendo quando diz que é bullshit esta história de tocar o coração de um, que vale a pena. Não é assim, depende das circunstâncias, do nosso humor, da nossa satisfação. Talvez se eu estivesse morando mais perto dos meus pais eu daria um foda-se, talvez não. Mas nós somos humanas, nos dedicamos ao trabalho de ensinar, e talvez por isso, doa mais quando desprezam nosso trabalho.

Adoro seus textos, by the way.

Beijos

Ge disse...

força aí! o fim de ano chega mais rápido que o meio.
;*

Miss Blueberry disse...

Olá! Me dê licença de dar minha opinião... Em primeiro lugar, acredito q vc deva ter paciência, pois só faz pouco tempo e vc ainda está se adaptando. Qdo vc se acostumar de verdade, as coisas melhorarão, um pouco que seja.

Já dei aulas para adolescentes e detestava. Muito alienados, sem educação, poucos salvavam. Já para crianças, eu gostava bastante.

Infelizmente, acho q vc terá de fazer o melhor POSSÍVEL, não o melhor EVER. Seja vc mesma, mas não se imponha - não adianta e vc só se estressa.

Enfim, espero q dê td certo, o melhor possível.

Boa sorte!

ronisiamarinho.com disse...

Ai Cá...
Eu me indentifiquei tanto com o que você escreveu... Eu também lido muito mal com a insatisfação, estou sempre procurando algo melhor e as vezes até acho que eu deveria mudar meu jeito e just "suck it up" mas só a gente vive a nossa vida, e se tá ruim só nós podemos mudar... Espero que seu semestre passe logo e/ou que melhore :)

Beijos mil e muitas saudades!