segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Cultura Racional e minha cidade


Todo domingo, nas cercanias da Praça da República, um grupo da Cultura Racional monta seus pôsteres sobre a seita e fica lá, o dia todo, abordando transeuntes para lhes levar a palavra de seu grande messias, o Tim Maia. Tá, não é Tim o messias. Nem sei se há um messias na Cultura Racional. Se houver, deve ser algum ET psicodélico. Nunca parei para ler os pôsteres pois é certeza que se eu parar, serei abordada. E, como todos sabem, eu não tenho paciência para conversar com estranhos. Uma pena, queria ter. Certamente dessa conversa sairia muito material para posts e conversas de bar. Algum dia em que eu acordar sociável (HAHA), conversarei com algum dos que ficam lá, de branco, esperando alguém que faça o mínimo de contato visual para que eles possam fazer algum tipo de abordagem.

Nunca li sobre a Cultura Racional. Nunca ouvi o disco, nunca li nem o prefácio dos livros. Tudo o que sei é que Tim Maia pirou o cabeção nessa seita. E sei de conhecidos de amigos que também piraram. Pra mim, tudo parece uma grande viagem de ácido que não teve fim. Por mais que eu acredite em vida fora da Terra, eu não consigo levar a sério uma seita que se baseia em extraterrestres. Na verdade, acho difícil levar a sério qualquer tipo de seita, mas isso é assunto para outro dia. De qualquer maneira, há algo na devoção dessas pessoas que me fascina. E algo no fato deles estarem lá, no centro da minha cidade, "pregando", que também me fascina.

São Paulo é esse aglomerado de prédios e pessoas. Algumas arvorezinhas aqui e acolá que têm puro efeito psicológico. "Calma, você não vive numa selva de concreto, olha lá aquela árvore, sozinha, imagine quanto gás carbônico ela está absorvendo". Todos sabemos que as pobres das árvores da cidade não dão conta de todo o ar poluído, mas é bom ter algum tipo de consolo. Então estamos aqui, no meio de prédios, gente maluca, carros e mais gente maluca. De todos os tipos. E, no meio desses tipos, temos as pessoas que acreditam. Que têm fé. E que estão numa cidade que lhes permite expor a sua fé no meio do centro da cidade, numa boa. Essa diversidade que temos em São Paulo é realmente fascinante. A poucos metros do pessoal da Cultura Racional há a feirinha, que vende artesanato, acarajé, yakissoba, sabe-se lá mais o quê. A mais metros dali temos a Liberdade. Praça da Sé. Arouche, reduto gay. Zona cerealista, reduto de temperos do mundo todo. E tudo isso faz parte da cidade. Que identidade São Paulo tem? Com essa misturança toda fica realmente difícil de dizer. Acho que o que mais identifica a minha cidade é que ela está aqui, de braços abertos, pra todo mundo. Pro Cultura Racional, pro vendedor de badulaques, pro maluco evangélico, pro católico, pros japoneses e chineses e armênios e italianos e ufa! A identidade de São Paulo é essa: é aquela tia que já passou da idade do frescor mas ainda é bonita e quando você vai na casa dela e vê aqueles móveis com capinhas de crochê você pensa "Ai, que cafonice, que horror, quero ir embora". Só que aí a sua tia chega com aquele bolo caseiro, café quentinho, dois dedos de prosa e pronto: lá está você, no sofá, conversando justamente sobre capinhas de crochê.

É assim que vejo São Paulo. Grande, torta, poluída, cheia de malucos, com trânsito absurdo e com um prefeito que me causa engulhos. Qualidade de vida aqui é quase piada. Mas basta um passeio na Paulista num fim de tarde. Basta uma andadinha no Centro num dia ensolarado. E pronto: caio toda reapaixonada pela minha cidade.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Aprendo, mas aos poucos

Depois de muitos anos colocando o trabalho como uma das coisas mais importantes da minha vida eu comecei a aprender que ele é só UMA parte da minha vida. No ano passado eu estava com dúvidas com relação aos meus rumos profissionais e aceitei um trabalho que, como vocês sabem, deu errado. Da minha parte. Eu poderia ter continuado lá, queriam que eu continuasse. Mas eu estava muito triste. Muito insatisfeita. Uma amiga me disse que eu estava me tornando uma outra pessoa: uma pessoa amarga. E eu não sou amarga, sabem. Sou mal-humoradinha, mas não amarga. Saí daquela escola. Estou desempregada. Sem rumo profissional mesmo. Não sei se quero continuar na área em que atuo - não porque eu não goste dessa área, eu amo; mas porque é uma área muito instável. Fiz uma viagem de fim de ano maravilhosa. Família do meu marido no Rio, amigos na Bahia. Quinze dias de delícias. Voltei e fiquei doente. Porque voltei e toda a realidade começou a pesar. E agora, o que faço, como posso estar me sentindo assim, será que estou com início de depressão, só quero chorar...

Aí eu parei pra pensar nessa viagem. Na minha vida como um todo. Eu tenho um relacionamento extremamente saudável com alguém que amo infinitamente. Tenho amigos maravilhosos. Mesmo. Tenho uma família doida, doida como qualquer outra família - mas que é MINHA família, que eu amo incondicionalmente. Pude ter 15 dias de férias onde desses 15, 9 eu passei comendo moqueca, acarajé, bebendo cerveja gelada com amigos incríveis. Amo minha casa, amo meus gatos, amo ficar em casa com meu marido e meus gatos.

Viram quanto amor?

ENTÃO COMO EU POSSO ACHAR QUE TUDO ESTÁ RUIM? Falem pra mim!

Eu sei: é porque eu sempre dei uma importância exagerada ao trabalho. Tipo, se estou infeliz no trabalho, todo o resto está ruim. Agi assim o segundo semestre do ano passado todo. Mas era só uma parte que estava ruim. E era uma parte que tinha sido escolha minha.

Minha maior resolução para esse ano é dar ao trabalho sua devida importância. Colocar o trabalho em seu devido lugar. Sem exageros, nem pra mais, nem pra menos. Sim, é importante se sentir realizada profissionalmente. Mas isso não é a única coisa da vida. Eu não quero ser workaholic. Eu renuncio isso, agora! Quero equilíbrio.

A vida não está ruim. UMA parte dela está difícil - e é justamente a parte que mais posso mudar, porque não sou presa a uma carreira, ninguém é. Todo o resto - o que realmente importa - vai muito bem, obrigada!

sábado, 5 de novembro de 2011

Quase loucura de amor

Antes de mais nada, eu confesso: eu sou caxias. Sempre fui, desde a mais tenra idade. Sou caxias daquelas que, às vésperas de pedir demissão, liga pra pai de aluno pra avisar que o nêgo não participa das aulas. Daquelas que, às vésperas de dar adeus, marca reforço com aluno. Daquelas que, pouco antes do bye bye so long farewell, faz horas extras em festa de Halloween - e também vai ao reformatório num sábado participar de exposição cultural dos monstrinhos. E, finalmente, daquelas que estava quase perdendo a colação de grau do marido para não faltar em um dia de trabalho.

É, sou caxias grau 10. A coisa é séria. As pessoas me chamam de responsável, eu acho que sou meio sem limites.

Pois bem. Meu marido demorou 7 anos para se graduar em Turismo na UFF, em Niterói. Ele trancou matrícula inúmeras vezes e levou tudo meio daquele jeito. Quando estava fazendo a monografia, quase desistiu. E aí eu entrei em ação. Eu, professora e caxias. Pensem. A conclusão é que passamos noites em claro juntos, ele escrevendo e eu revisando e dando apoio moral na forma de Red Bull, café, coca-cola e cronogramas colados na parede da sala.


A monografia saiu. Ele tirou nota muito boa. Marcaram a data da colação de grau: uma quinta-feira, às 6 da tarde. Minha primeira reação foi: não posso ir. Minha segunda, terceira e quarta reações foram essa mesma: não posso ir. Não queria pedir dispensa porque minha gerente surtaria e eu acabaria por pedir demissão antes do tempo, algo que não posso fazer - por questões financeiras. Chegou a véspera dele viajar e eu chorava. Fui trabalhar e passei o dia macambúzia. Não tinha mais jeito. No dia seguinte seria feriado e logo depois o dia da colação.

Conversei com duas colegas de trabalho e elas foram unânimes: você vai se arrepender. VÁ. Começou a me dar aquele comichão. Eu não poderia pedir dispensa àquela altura do campeonato porque isso geraria uma guerra. Teria que inventar uma desculpa, das boas. EU, que sou caxias e não sei mentir. Só defeitos. Eu posso até mentir mas me sinto tão culpada depois que deusolivre, fica muito difícil.

Pensei, pensei, pensei. Adiantei o que pude para as aulas de quinta, caso eu resolvesse ir. Pensei em alguma desculpa. Todas as histórias eram muito mirabolantes. Não ia rolar. E eu não conseguiria conversar cara-a-cara com a gerente porque ela ia surtar e eu ia jogar tudo pro alto. Voltei pra São Paulo (trabalho em outro município) conversando com minha colega. E ela lá, falando que eu sou besta. E que devia ir. Liguei pruma amiga. E ela lá, falando que sou besta, que devia ir. Porque é a minha vida e emprego a gente arruma outro. E essa formatura era muito importante e eu não podia deixar de estar ao lado do meu marido. Falei com outra amiga e ela lá, falando que sou besta e que o amor é que importa e que eu devia ir.

AI MEU DEUS.

Liguei na escola e falei com o chefe da secretaria. Fui breve: problema com a família do meu marido e eu teria que ir pro Rio de última hora. Agora só faltava a passagem. Ia tentar avião só por desencargo de consciência porque não daria certo mesmo, estaria muito caro, mimimi. Desci do ônibus em frente a uma loja da Gol. Entrei louca: "moça, vou fazer uma loucura de amor, me consegue passagem em conta pra HOJE pro Rio de Janeiro". A atendente adorou. E me achou passagem pra dali uma hora e meia por 65 dilmas.

OLHA O UNIVERSO CONSPIRANDO, gente.

Correria, fiz a mala em 10 minutos, levei mais uns 5 explicando ao meu marido estupefato que sim, eu iria. Vou faltar no trabalho. E minha prioridade é minha família. Meu amor. Ai, que bichinha. Cheguei no Santos Dumont quase junto com meu marido. E quando ele disse "que bom que você veio" e me deu um abraço, tudo fez sentido.

Em outras palavras:

MELHOR DECISÃO dos últimos tempos. Que bom que tive grilos falantes me aconselhando a ir. Que bom. Voltei a trabalhar ontem, foi tudo bem, a gerente não falou nada, não perguntou nada, não quis saber. Eu agradeci aos céus por isso. Que bom que eu contei uma mentirinha em nome de algo maior. Revi meus cunhados, sogro, sogra e avó fofa do meu marido. E foi tudo tão bom!

Moral da história: tudo vale a pena se a alma não é pequena. BRINKS. A moral é que emprego nenhum está acima de estar ao lado de quem se ama num momento importante. Ai, que bichinha².


(de beca e All Star, é assim que se faz!)

sábado, 22 de outubro de 2011

I know a place where you can get away, it's called a dance floor and here's what's for

Eu não sou exímia dançarina, nunca fiz ballet e sou melhor na dança de salão do que nas coreografias de música pop. Não importa. Desde que eu me entendo por gente, ou seja, desde que eu tinha uns 21 anos, dançar é a minha meditação, a minha reza. Em casa em frente ao espelho ou na buatchy, é dançando que eu esqueço da vida e faço tudo melhorar. O mundo está ruindo? Saio pra dançar. Pra me perder na pista de dança, pra rebolar até o chão, pra cantar alto as músicas que me fazem feliz. Estou feliz? Também saio pra dançar. E é dançar sem me importar com pose, porque fazer pose não combina com a dança.

Essa semana, pra variar, foi um grande cocozão. Então hoje eu vou sair pra dançar. E espero que toque essa música:

Love on Top, Beyonça

Eu entendo a piração da mulherada com "Run the world". É uma música bacana. Mas gente, vai tentar dançar aquele troço. É complicado. Não quero run the world, quero love on top com dancinhas!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Deixando de escutar para apenas ouvir

"Hear" é quando você ouve algo sem intenção. "Listen" é quando é intencional. You hear the noise coming from the street, you listen to music. Em português temos ouvir e escutar, mas eu acho que não há uma diferença tão explícita entre um e outro em nossa língua. Ou há? Enfim. Um professor raramente consegue apenas "hear" os alunos. Um professor "listens to" alunos. Não tem como. Você está lá e seus ouvidos estão ligados. Em tudo. Nas fofoquinhas faladas em sussurros. Nas reclamações. Nas frases repetidas na hora do drilling. Em uma turma de 20 alunos eu consigo identificar quem está falando de fato as repetições e quem está apenas mexendo os lábios. Meus alunos querem morrer comigo. Assim como querem morrer quando sussurram uma reclamação e eu respondo em voz alta, pra todo mundo ouvir.

Esse poderia ser considerado um talento. Eu vejo isso como um fardo. Quem de fato escuta não consegue ignorar as bobagens que ouve no dia-a-dia. Quem de fato escuta não consegue praticar o "entra por um ouvido e sai pelo outro". Se eu apenas ouvisse e me atentasse em fazer o que devo fazer, que é corrigir erros falados em inglês, eu seria mais feliz. Eu não absorveria as asneiras que me falam e não carregaria o peso delas depois. Asneiras pesam, sabiam?

Aluno repetente que vem tirar satisfação porque diz que eu cobrei na prova matéria que não dei em aula. Mentira, eu só cobro em prova o que foi ensinado em aula. O energúmeno me mandou recadinho escrito! Entrei na sala-de-aula feito um tufão. "Ô bonitão, posso saber que droga de recadinho do coração foi esse que você mandou?". Falo assim mesmo com o pessoal do ensino médio, senão eles nem olham na minha cara. Fui obrigada a escutar que eu coloquei palavras que não ensinei ainda. Palavras no texto da compreensão de texto. Tive que segurar o riso. "Amiguinho, compreensão de texto é isso mesmo. É encontrar uma palavra desconhecida e entendê-la pelo contexto". Escuto: "mané contexto, cara? Vem cobrar coisa que não ensinou?". Argumentei que um idioma só é idioma se tiver contexto. Contexto é tudo, vamos amar o contexto. Ele virou a cara pra mim e ficou resmungando. É lógico que eu escutei. É lógico que eu fiquei puta da vida.

Estou doente desde quarta-feira, ontem dei aulas o dia todo. Mas estava com tanta dor de garganta que em um momento de uma das aulas eu relaxei. Deixei os alunos conversarem em português mesmo, 5 minutos não matariam ninguém. Alunos na faixa dos 12 anos falando sobre planos para o futuro e o quanto deve ser difícil passar na faculdade. E que pra passar na USP só quem é muito nerd e estuda demais. Interrompi e contei que eu passei sem estudar nada porque era boa aluna e tenho boa memória. Ele ficaram maravilhados. Um aluno me fala: "teacher, mas não estou entendendo uma coisa. Você estudou. E você é inteligente. E sabe inglês. Porque você é professora??? Por que não é bem-sucedida?". Ô tristeza. Ele perguntou sem maldade. Eu expliquei a ele que na minha área, dar aulas naquela escola era uma maneira de ser bem-sucedida. Ele rebateu: "mas ser bem-sucedido não pode ser ter que aturar aluno mal-educado e você atura isso todas as aulas". Sábio, não? Encerrei a conversa e voltamos à aula. Mas estou até agora pensando nisso. E por quê? Porque não sei ouvir. Tivesse eu só ouvido, teria encarado isso como uma conversa besta de alunos adolescentes. E só.

Ontem saí da escola e fui direto pro hospital. Amigdalite. Garganta bastante inflamada, toda cagada mesmo. Liguei para a minha gerente para avisá-la que eu não poderia dar aula hoje. A nêga passou o dia de ontem inteiro vendo como estava difícil para mim por causa da dor de garganta. Ela VIU. E deu-se ao direito de ter chilique comigo ao telefone, horrorizada porque eu tinha atestado para um dia. Como assim eu não daria aula, ai meu deus, e você ME AVISA AGORA? Poxa, eu fiquei horas no hospital, só soube do atestado agora. Tive que escutar grosseria e tive que escutar um "PELO MENOS você mande por email EXATAMENTE o que deve ser dado pra essa turma. É o mínimo que você deve fazer. A gente te ajuda mas você tem que nos ajudar um pouco".

Eu escutei, claro.

E estou remoendo essa merda até agora. Quero sambar na mesa dessa insensível. Quero sair gritando pela escola "filha da putaaaaaaaaaa, estou aqui só porque estou cumprindo a minha palavra, porque não quis te deixar na mão, e você me fala UMA BOBAGEM DESSA? Enfia esse trabalho no orifício que melhor lhe convir e me mande embora!". Mas é claro que segunda-feira ela estará um amor comigo, porque ela sempre percebe quando faz merda e depois vira uma seda.

Nem 4 meses num lugar e já quero deixar de lado um dos meus talentos de vida, que é saber escutar. Cansei, só quero ouvir. Preferencialmente só "blablabla whiskas sachê". Só.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Mural de mimimi

Como eu sou VINTAGE eu decidi que vou fazer desse blog meu mural de mimimi por um tempo. Em outras palavras, até dezembro. Nos primórdios dos blogs - e acreditem, I was there - blogs não eram essa coisa toda temática e calculada de hoje em dia. Blogs eram amontoado de textos sobre coisas aleatórias sendo que, na maioria das vezes, eram um amontoado de mimimis que, no final das contas, faziam sentido para determinadas pessoas. Tudo era muito mais espontâneo e, consequentemente, mais divertido.

Duvido que meus posts até dezembro sejam divertidos porque estou numa fase bem difícil profissionalmente e não tenho visto muita graça em quase nada. Estou monotemática, só penso em trabalho, me sinto chata. Quero poupar um pouco os que amo. Então vou resmungar aqui mesmo. Tenham paciência ou então voltem só depois do dia 09/12 - tudo bem, sem mágoas.

(Eu nunca menti pra vocês: eu escrevo mimimis em primeira pessoa, diarinho puro. O máximo que faço é filtrar o que escrevo para não ficar pessoal demais ou não ofender ninguém. Não sei se meus amigos leem aqui com frequência, não checo pageviews, entro aqui e despejo bobagens e pronto.)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Essa é minha vida, esse é meu clube

Dois meses depois de estar estando me fodendo a nível de transporte coletivo eu descobri um ônibus que passa na esquina de casa e me leva lá pro cu do mundo. É um ônibus bem mais caro e que demora muito mais a passar. Mas é ônibus de viagem e com poltronas confortáveis. A merda é ter descoberto essa maravilha só agora. Que já fiz duas alterações na minha requisição de vale-transporte.

Os dias passam rápido. Muito rápido. Pisquei os olhos e já é o meio do semestre. Já apliquei os midterm tests. Já corrigi mais da metade deles. Já sei que alunos têm muita dificuldade (são poucos) e que alunos têm muita sem-vergonhice (a maioria). Alguns dias eu gosto dos little fuckers. Outros dias, nem tanto. Sempre tenho vontade de dar respostas escrotas a todos, sempre. Na maioria das vezes eu me controlo. Quando me descontrolo sinto um prazerzinho dentro do peito - porque sempre que dou alguma resposta escrota é certeza de que o motivo é que o aluno passou de todos os limites do aceitável. Isso que nem estou falando das aulas na escola regular, só das aulas na unidade da escola de inglês.

As aulas na escola regular são odiosas. Duas únicas vantagens: eu estou aprendendo a lidar com frustração diariamente. E acho que tenho me saído bem. A outra é que meu coração ainda consegue ficar quentinho com algumas atitudes dos alunos dessa escola, que é mais um reformatório. Uma turma indignada porque eu disse que no ano que vem não continuarei lá. "Agora que temos uma professora boa, que explica direito e é legal, vão mudar você daqui?????". Saí de lá sorrindo nesse dia. Mas não é o suficiente para compensar pelos dias em que saí triste. Inconformada. Com o peito apertado porque minha vontade era de gritar "seu bando de playboyzinho metido a besta, vão carpir meia hora na lavoura pra ver se viram gente".

Aluno teve chilique. CHILIQUE. Porque foi mal na prova e ai ai ai com a outra professora ele ia bem. Amiguinho, você sassarica minha aula inteira. Você não sossega esse seu cu um segundo. Não presta atenção. Não faz lição. Bate nos colegas. COMO você ia bem antes? E é claro que não respondi assim, não falei a palavra cu. Respondi e ouvi, como resposta, um ui ui ui você não me dá atenção. Gente. GEN-TÊ. 20 nêgos numa sala chamando meu nome. Eu dou atenção o quanto eu posso. Quer ensino individualizado pague por aulas particulares. E falei isso, claro, que eu sou uma bocuda. Aluno chilica de novo. Belezoca, vá AGORA na diretoria reclamar do meu trabalho. Vá, tem minha autorização.

E foi? Não foi. Porque pode ser boludo pra dar chiliquinho com a professora mas quero ver ter colhões de mentir pra diretora. Porque eu dou aula. Eu explico. Eu dou atenção. Dizer o contrário, malz aê, é mentira. Vai mentir lá, vai. Vai? Claro que não.

Aluno reclama porque mudei ele de lugar, coloquei-o perto de mim. Ah tá. Tá reclamando de sentar perto de mim e admirar minha beleza quando quem deveria reclamar era eu, por te aturar toda semana? Repensa isso aí, amiguinho. E eu falo, falo, falo. Não me seguro. Reclamo pra diretora do treinamento aos sábados. Reclamo pra minha coach sobre observar aulas de outros professores, questiono sempre se eles acham que professor não tem direito a vida social.

E, por conta da minha boca solta ganhei o respeito dos professores que trabalham comigo. Por conta do meu jeito meio despachado minhas turmas de adolescentes na unidade gostam de mim. Uns não muito, mas a maioria gosta muito.

E é aí que eu vejo: já tive crises profissionais, já trabalhei em lugar em que não queria trabalhar. A diferença é que agora eu faço o que gosto, portanto, consigo suportar. É por isso que conseguirei me segurar até o final do semestre. Porque eu gosto do que eu faço. Nunca trabalhei num lugar onde sentisse tantos mixed feelings, uma hora gosto, outra não gosto, outra odeio, outra acho até que bacana. Tudo no mesmo dia. E sigo, porque eu não sou de deixar coisa pela metade. E, se eu sair, quando eu sair, sei que terei feito um trabalho bem decente.

No final, é isso que me move.

sábado, 17 de setembro de 2011

1 ano morando juntos!


1 ano morando juntos. Passou tão rápido! E pensar que há um ano eu estava maluca tentando provar que eu não era a minha homônima fora-da-lei. E pensar que tudo começou numa viagem super despretensiosa à Bahia. E pensar que, numa viagem em que eu tinha jurado não ficar com ninguém, eu encontrei o amor da minha vida. :)

A vida é bem bonita às vezes.

<3

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Hoje eu vim aqui abrir meu coração

Eu amo o que eu faço. Dou aulas de inglês por amor mesmo. Dá trabalho, é cansativo, mas eu acho o máximo quando vejo resultado, quando vejo alunos aprendendo, melhorando, evoluindo. Eu gosto de trabalhar focada em resultados porque é aí que está a graça do que eu faço. Não é a camaradagem entre aluno e professora que me atrai, eu já tenho muitos bons amigos e não consigo dar conta de mais. Eu realmente não ligo muito para essa coisa de agradar a todos e todos me agradarem que é bastante comum na minha profissão. Eu quero é ver nêgo chegar pra mim falando que aprendeu. Que sente que melhorou. Que nem viu a hora da aula passar.

Eu adoro dar aulas para grupos. É muito mais dinâmico e divertido do que aulas particulares onde fica-se à mercê do humor do aluno. E aí temos aquele velho dilema: dar aulas particulares dá muito mais grana, mas é instável. Dar aulas para grupos é mais interessante mas trabalhar em escolas é quase sinônimo de escravidão. Aí eu fui lá e abri a minha empresa. De aulas em empresas. Só que para tocar as coisas eu tive que dar menos aulas e o óbvio aconteceu: comecei a sentir falta e entrei em crise. Até escrevi sobre isso aqui. Tentei achar saídas onde eu pudesse dar aulas para grupos e manter meu negócio. A saída veio em duas grandes escolas me chamando para processo seletivo. E eu optei pela mais antiga e tradicional pensando "se é pra ir, que seja na maior".

Acho que eu comecei a me enganar aí. Empresa no ranking das 100 melhores empresas pra se trabalhar no Brasil é bastante atrativo, né? Empresa com o seu ex-tutor-do-CELTA-atual-amigo lá é mais atrativo ainda - porque trabalhar com ele é um sonho. O cara é só um dos mais fodões da minha área, é claro que eu optaria pelo lugar onde ele está. Sem contar o nome da escola, que abre portas. Abre sim. As pessoas te olham diferente quando você fala que trabalha lá. E para lá eu fui.

O período de treinamento já deu indícios de que tudo seria muito difícil. Eu persisti. Há uma unidade a um quarteirão da minha casa, não havia vagas, me mandaram para uma unidade onde a gerente dá medo. Não foi legal. Aí fui contratada de fato pela unidade que fica em outro município. Eu não tenho carro. Vou de ônibus todos os dias estrada afora. Trabalho num lugar lindo com pessoas amigáveis e com uma gerente que tenta fazer o melhor.

Mas sempre há o mas. No meu caso, há muitos "mases". Achando que turmas de adolescentes não seriam tao insuportáveis, achando que turmas de adolescentes poderiam ser divertidas e querendo uma grande mudança e novas experiências (mais de 8 anos dando aulas para executivos dá um certo cansaço) eu disse sim. Sim, sim, sim, vamos lá, I embrace changes. NOVE turmas de aproximadamente VINTE alunos. Apenas uma turma de adultos. O resto é só de pirralhos. Mimados. Três turmas são em ESCOLA NORMAL. Eu não pensei que teria turmas em escola normal.

Peço que vocês voltem no tempo comigo. Eu tinha 19 anos e passei em Pedagogia na USP sem estudar. Nunca abri um livro. Passei. Beleza que Pedagogia nem é isso tudo na concorrência mas eu tava lá, na USP, aquele lugar onde só tem gente metida a besta. Quatro anos de magistério não foram suficientes para me convencer de que dar aula em escola é uma BOSTA. Bosta fedida. Entrei na faculdade e a ficha caiu: cara, dar aulas em escolas fede. É ruim. É pra quem ama mesmo e eu não amo isso. Abandonei a faculdade e nunca mais voltei.

Muitos anos depois, cá estou eu, tentando me encontrar, tentando pertencer, querendo ter colegas de trabalho para fofocar durante o intervalo de aulas. Quando eu dei aulas numa outra grande escola de inglês eu tinha isso. Adorava. Estava sentindo falta de pertencer a um lugar maior. E fiz essa escolha. Onde fui parar? Fui parar dando aula em escola normal, aquilo que eu não queria fazer, não quero fazer, aquilo que eu detesto. Os alunos mal olham na minha cara. Eles não querem fazer nada. Eu não vou ver resultado nenhum no meu trabalho. E não me venham dizer que conseguirei tocar o coração de um deles e isso fará valer a pena. Bullshit. Vai valer a pena todo o stress pelo qual estou passando? Sinto dores no corpo diariamente. Choro todos os dias, praticamente, de desespero, de "o que foi que eu fiz?".

Dou muitas horas de aula por semana, longe, para adolescentes ingratos que eu apelidei de "little fuckers" - se eu não puder fazer piada, aí fodeu tudo mesmo. Little fuckers são ingratos, ficam contando o tempo da aula pra ir embora, falam mal de você na sua cara. Eu já dei tanta comida de rabo em duas semanas que olha, nem sei. Já falei, inclusive, que eles nem precisam gostar de mim porque minha vida é super ok sem gostar deles também. HAHAHA, olha a que ponto cheguei. Sabemos que pra alguém que ama o que faz isso é mentira, né. Eu quero que me meus alunos gostem de mim e da minha aula e aprendam e saim satisfeitos sem ver o tempo passar.

E isso que nem comecei a contar que totabilizo a insana quantia de mais de 150 alunos adolescentes e que em 2 pontos do semestre eu terei que ligar para todos os pais e mães deles. Vocês não imaginam a carga extra de trabalho pedida por essa escola.

E eu assumi um compromisso por um semestre. Não posso sair porque não quero queimar meu filme. Minha coach e meu amigo de lá me falam que tenho que fazer vista grossa. Eu sou CDF. Eu não sei fazer vista grossa! Eu sou nerd, gente, nerd quer que o trabalho saia lindo. Não é da minha personalidade fazer vista grossa. Ontem eu fiz vista grossa e saí da aula com o coração doendo. Tive dor de cabeça o dia todo - e estou com dor até agora. Nenhum professor que trabalha comigo está feliz, ninguém gosta de dar aulas lá, só reclamam. Mas ninguém pede demissão porque todos pensam que se lá é daquele jeito, em outros lugares é pior ainda. Eu discordo.

É muito difícil admitir que apesar do tamanho da empresa, apesar de tudo, apesar dos pesares, eu acho que não fiz a escolha certa. Eu não lido bem com insatisfação. Estou insatisfeita? Eu faço algo pra mudar. Sempre deu certo, essa é a primeira vez em que deu errado. Tenho que aguentar esse semestre.

Já estou na contagem regressiva.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Tá trânsito, né? Que fila, né?

Acho que eu posso morrer, reencarnar como uma linda borboleta Monarca, viver minha breve vida de borboleta e morrer de novo e, ainda assim, não entenderei todas as nuancas do incrível (not) comportamento humano. No episódio de hoje da série "Exploda mundo sem noção" falaremos de gente que gosta de atestar o óbvio só pelo prazer de abrir o buraco da boca e dela fazer sair sons completamente inúteis para qualquer ser vivente.

Temos como exemplo eu, hoje de manhã. às 6:15, para ser mais exata. Estava frio, escuro e eu nunca sou feliz tão cedo. Tinha que estar às 6:50 na Granja Fucking Viana, aquele bairro belo e distante onde só se chega através da Raposo Fucking Tavares. Eu dou aulas na Granja nesse semestre. Não estou feliz com isso, menos feliz ainda às 6 fucking quinze da manhã.

Pego o coletivo e vislumbro um lugar vazio. No afã de repousar minha bunda nem olhei para o lado para ver quem estava ali, simplesmente sentei-me. Ipod, música alta para acordar e maravilha. Quando vejo que a senhora ao meu lado falava sozinha. Hum, isso requer artilharia mais pesada, isso exige o kit anti ceresumanos completo: óculos escuros e olhos fechados para fingir que está dormindo. Tudo a postos, sinto um cutucão. Dois cutucões. Três. E uma voz à la professora do Charlie Brown. Abri os olhos com cara de simpática (not). Era a véia ao meu lado falando que estava trânsito. E pedindo para eu olhar para o trânsito.

Cara, eu olho para o trânsito todos os dias. Eu pego a Raposo Fucking Tavares diariamente em transporte coletivo. Eu SEI o que é o trânsito pois sinto esse maldito em minha alva pele todos os dias. O que fiz? Não dei atenção. Fechei os olhos de novo. Fui cutucada, DE NOVO. Abri os olhos mais uma vez e, dessa vez, a véia louca estava brava comigo porque eu tinha que olhar. Olhei. Falei com uma voz simpática (not) "Tá trânsito, e daí?". Ela pareceu entender o recado e voltou a falar sozinha. Mais tarde, cutucou a moça que estava em pé e as duas pessoas sentadas à nossa frente só para saber se ali era a Granja Viana.

Não me venham pedir compreensão com gente louca porque olhem, eu não sou obrigada a aturar gente lelé às 6 da manhã de uma terça-feira em que trabalharei DOZE horas. Porque o principal aqui não é que a véia é doida. Ou digna de pena. Ela só é sem noção, sofre desse mal que acomete a humanidade inteira e que só vem piorando, dia-a-dia, vitimizando um número cada vez maior de gentalha.

Jamais entenderei a necessidade das pessoas em falarem o óbvio. Tá fila. Tá chovendo. Tá frio. Tá trânsito. Gentê. Eu estou na mesma merda que vocês, eu estou vivenciando a mesma porcaria de experiência que você nessa fila, nesse trânsito, nesse dia chuvoso. Eu não quero conversar contigo porque eu detesto conversar com estranhos. Então vamos combinar que você cala a sua boca e eu continuo com a minha calada. Olha que fácil.

Em alguns momentos eu dou graças aos céus por eu não ter nenhum poder sobrenatural. Porque eu adoraria, vez em quando, olhar para a cara das pessoas com fogo saindo dos meus olhos. Pra ficar bem clara a mensagem.