domingo, 8 de abril de 2007

Família, família - ou - mais um post longo


Olive: Grandpa, am I pretty?
Grandpa: You are the most beautiful girl in the world.
Olive: You're just saying that.
Grandpa: No! I'm madly in love with you and it's not because of your brains or your personality.

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Dwayne: You know what? Fuck beauty contests. Life is one fucking beauty contest after another. School, then college, then work... Fuck that. And fuck the Air Force Academy. If I want to fly, I'll find a way to fly. You do what you love, and fuck the rest

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Eu usava um par de óculos quase igual ao da Olive e também tinha problema de peso, mas ao contrário: eu era magra feito um bambu novo. A única vez em que me inscrevi num concurso foi de Miss Caipirinha e fiquei com tanta vergonha de subir num palco e dançar qualquer coisa que fosse que congelei - as outras meninas bem desinibidas dançando alguma música caipira e eu lá, bambu que não mexia com o vento. Era uma festa junina num sítio, minha família toda vendo, eu fui desclassificada, obviamente. Mas lembro de minha avó rindo e dizendo que um dia eu ainda ia perder aquela timidez toda. Profética, minha avozinha. Eu nunca teria a coragem da Olive de fazer toda uma coreografia prum monte de gente, não com a idade dela. Por mais que eu tenha me identificado com algumas coisas da menininha, eu admito que a identificação é muito mais atual do que deveria ser, o que não deixa de ser, er... peculiar.

O fato é que eu achei o filme genial. Os personagens geniais. E destaquei esses dois diálogos (embora um seja somente uma fala) porque me chamaram realmente a atenção. Life is one fucking beauty contest after another e isso não poderia ser mais verdadeiro. Mas ali havia uma família - louca, cada um mais loser que o outro e isoladamente eles eram bem freaks. Bem, juntos também. Mas eles subiram no palco e dançaram com a Olive. Saí do cinema pensando exatamente nisso: tenho certeza que minha família subiria no palco e dançaria comigo. Por mais freaks que nós todos sejamos, eles subiriam no palco e dançariam - e acreditem, por mais que eu tenha quase 28 anos na fuça, isso é um conforto e tanto.

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Nessas duas últimas semanas eu só comprovei que sim, minha família subiria no palco e dançaria comigo. Se meus amigos mais próximos têm sido verdadeiros anjos, minha família tem sido anjo e meio. E eu olho pros meus familiares, pra cada um deles, e enxergo direitinho no que eles são freaks. Meu padrinho, meu modelo masculino pra vida toda, fala tanto de sexo quanto um evangélico fala de Jesus. Já minha mãe é a Santa Tentativa Mista de Madre Teresa e São Francisco. Ela não fala palavrões. E, se até uns anos atrás ela era difícil comigo, hoje em dia ela é uma manteiga derretida de tão fofa. Ela fica chocada comigo, dizendo que sou muito ácida, muito maldosa, muito linguaruda, mas morre de rir dos meus comentários sobre tudo. E eu devo a ela minha paixão por musicais, coreografias e que tais.

Minha tia, segunda mãe, é esotérica. Daquelas de fazer feng shui, falar sobre gnomos e entender tudo sobre cromoterapia. Ela é professora, e foi minha professora do maternal ao pré. Minha mãe e ela trabalhavam numa escola alternativa, onde a época de provas tinha nome de lances indígenas e meditação. Minhas primas são teatrais, falam bobagem até não poder mais, imitam os outros e ainda têm aquela coisa adolescente de achar que o diferente é errado. Todos, sendo eu a única exceção, são muito religiosos: freqüentam centro espírita toda semana, faça chuva ou faça sol. Eu e minhas primas crescemos num ambiente religioso, mas ao mesmo tempo livre. E eu cresci nesse balaio de gente bem diferente e que, falando assim, parecem mesmo muito estranhas; mas que são a base que eu sempre tive, que tenho, e que eu amo.

E aí nessas últimas semanas, que têm sido um pouco complicadas, eu ganhei abraços silenciosos. Daqueles em que não é preciso falar nada, sabem? E ganhei Nhá Benta, Nutella e flores da minha mãe. E compreensão. Minha prima veio aqui em casa fazer minhas unhas, porque "linda, você pode ficar triste, mas perder o glamour, jamais!". Meu tio enfrentou tempestade pra me levar pra comprar coisas aqui pra casa, e gastou o sábado do feriado pregando luminárias e cortinas pra mim, só porque eu disse que ficaria feliz em ver minha casa mais arrumada. E ontem, quando todo mundo se juntou na casa das minhas primas, e todos falavam ao mesmo tempo, rindo, depois discutindo, depois voltando a rir, enquanto tirávamos fotos esparramadas no sofá e eu ouvia as histórias adolescentes das minhas primas, eu lembrei de "Pequena Miss Sunshine". E de como, nesses últimos tempos, minha mãe, meu tio, minha tia e minhas primas, cada um à sua maneira, têm subido ao palco e dançado comigo. E, mesmo com 28 anos na fuça, adulta, independente, quase o homem da casa e quase mãe da minha mãe, isso continua sendo um conforto e tanto. Porque tem horas que só colo de família ajuda.

7 comentários:

Miru disse...

:~~~~
É toda a nossa base, né?

Agora vem aqui e me dá um abraço.
:***

Cris disse...

Jemt, tô com ozoio cheio d´água depois de ler seu post :~

Klein disse...

Nossa, cromoterapia. Aquelas coisas do tipo "mentalize uma luz verde" e você pensa numa luminária em formato de abacate. De todas as coisas místicas essa é a que me deixa mais perplexo, com certeza!

Ivana de Souza disse...

Gênero, número e grau. Pela opinião sobre a família e sobre o filme. Se você analisasse a cena do palco apenas com olhos de telespectador, ela seria mais uma de besteirol americano, mas o filme é simplesmente fuderoso, com metáforas e diretas.
:)

Lija disse...

Ai Chu, que coisa linda. E eu nem vi Little Miss Sunshine. Mas acho que saquei a essência.

Holly disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Holly disse...

E tem horas, que só colo de família ajuda...
:´(((((((