quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Sobre torcer o nariz

(texto dedicado à minha amada Lilla, a rock-metal girl mais bagaceira e mais sem preconceitos que conheço, que, assim como eu, parou de torcer o nariz. Também minha companheira de jogação)

Fosse ele mais esperto, mais ligeiro e menos neurótico, talvez tivesse obtido "great success", com direito a entonação à la Borat e tudo mais. Era um cara legal, muito confiável, engraçado, boa companhia. Muitas qualidades, pois sim. Mas havia um problema: não havia conversa que não fosse entremeada por algum resmungo. Alguma neurose. Dançar, nem pensar: "mulher que dança é chato: a garota perfeita detesta dançar". Opa! Como assim? Explicou-se: "se quiser, pode dançar, eu fico só olhando sem problema algum, mas nem venha tentar me fazer mexer o corpo, eu só quero ficar quieto e beber minha cerveja. A mulher ideal sai comigo pra boteco, não pra dançar". E nem adiantou perguntar mais: não, ele jamais ao menos tentaria dançar.

Música, só única e exclusivamente aquelas. Aquelas, que são legais, aquelas, que são bem tocadas, mas não, nenhuma outra, grato. Comida, nada de muitas experimentações. Andar pelas ruas era sinônimo de assalto. Parecia, em alguns momentos, que viver era um risco iminente. E todos os questionamentos morais intermináveis, os grandes dilemas "devo ou não", metódico, ai meu deus: quer? Faça. É simples, muito simples. E foi aí que tudo começou a perder a cor.

Que fique claro, a cor não se perdeu pelos gostos, e sim pela falta de vontade de experimentar coisas novas, de viver coisas novas, de se permitir. Que não goste disso ou daquilo, ou de muitos dissos e muitos daquilos, sem problema algum. Mas parecer fechado em si e fechado pra tudo que for novo, puxa, que difícil.

Mas são amigos até hoje. Bem, na verdade sempre foram somente amigos.

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Eu venho pensando muito sobre essa coisa de torcer o nariz. Porque eu já fui assim: já torci o nariz pra tudo. Porque eu tinha padrões rígidos de qualidade, padrões pessoais, enfim, padrões. E aos poucos eu fui vendo que isso não me levaria a lugar algum. Logo eu, que sempre alardeei que não gostava de radicalismos, estava me tornando uma chata radical. E eu já sou chata, com o adendo do radical eu estava mesmo ficando insuportável. Auto-consciência tá aí pra isso, não é mesmo minha gente. Não que fosse uma menina-cara-feia-night-and-day. Não, não... Eu sempre tive senso de humor. Bizarro, mas senso de humor. Mas, sei lá, eu fazia questão de manter minha palavra de que, determinadas coisas, mon dieu, que horror.

Foi todo um processo essa coisa de fazer o nariz parar de torcer tanto, e, com certeza, esse processo chegou ao fim no comecinho desse ano. Minhas fotos dançando ao som de Ivete Sangalo, vestida com um abadá no meio de um show na Bahia provam isso. Eu disse que foi por amor, e, em parte até foi, mas, convenhamos: amor nenhum no mundo faz você dançar Kaoma nem fazer as coreografias de algumas músicas - fiz porque quis, mesmo. Foi tão, mas tão divertido, que eu adotei de vez para mim a filosofia do "se está no inferno, abrace o capeta". Esse ano eu não só abracei, como sentei no colo e ainda dei beijinho no rosto. Posso dizer que tem sido um dos anos mais intensos da minha vida e que tenho me divertido muito mais: simplesmente porque parei de fazer cara de nojinho pra tudo. Continuo tendo meus padrões de qualidade, continuo com diversas frescuras das quais não quero me libertar e show de graça no Anhangabaú, com o populacho suando, eu passo longe. Mas entendi, de uma vez por todas, que uma noite sambando num boteco nunca vai arrancar minha dignidade. Pode fazer com que eu vire alvo de piadinhas dos meus amigos com senso de humor escroto, mas, até aí, amigo tá aí pra isso: dar motivo pra rir.

E aí eu descobri que não consigo achar graça em quem não tem curiosidade. Eu gosto de gente que quer saber. Que paga pra ver, que fala "vamos tentar", "vamos experimentar", "vamos descobrir". Eu gosto de quem arrisca, de quem enfrenta, de quem mostra que é forte, ainda que, obviamente, ninguém seja forte o tempo todo. Sabe gente que abraça a causa? Que dança com você no meio da rua se isso for pra dar risada? Sabe, gente que, na hora certa, consegue tocar um "foda-se" bem bonito. Gente que consegue rir de si mesmo. Gente que, sendo bem simplista no meu exemplo, ouve música boa em casa mas se diverte ouvindo e dançando Beto Barbosa num churrasco. Basicamente, gente que se se joga e arrasa na vida quando há chance: esse é o tipo de pessoa que me encanta de verdade.

3 comentários:

Kelli disse...

Menina, menina...
vc não faz idéia de como esse texto parece que foi escrito para mim...

Bjão

lilla disse...

eu também, eu também, em tudo, e no final do texto, e putz, você é foda. você arrasa. de novo, eu te amo.

Lorde David disse...

Eu às vezes curto um For-All. :) Um beijo.