terça-feira, 10 de agosto de 2010

Pataxó saliente

Depois de uma hora de sacolejo numa estrada de terra mais esburacada que a Lua, finalmente chegamos à lindíssima Praia do Espelho. Dei início então ao meu ritual praia: andar pela beira d'água para tirar fotos da paisagem e pensar na vida. Sempre faço isso. Voltando do meu ritual, ouço alguém falar "Jocasta, Jocasta". Olhei e era um índio vendedor de artesanato. Por segundos uma grande interrogação pairou sobre minha cabeça. Uma interrogação que continha as frases "De onde que sou Jocasta?" e "Mas gente, que índio é esse que conhece Édipo?". Apurei os ouvidos, certamente prejudicados pela ventania. E entendi que estava sendo chamada de JOCANA. Não Jocasta. Grandes merda, continuei sem entender lhufas. JOCANA?

Chega o índio e me dá uma leve puxada pelo pulso: "Venha, Jocana, venha ver os colares". Recusei, afinal, nem sei o que é Jocana e eu não sou adepta de colares e afins. Sou meio desligada de bijoux e afins. Se for de coco, madeira ou pena, esquece, dificilmente vou usar. Essa vibe de hippie vendedor de gnomo feito de durepox não me atrai e, pra ser sincera, eu acho muita coisa bem feia. Algumas coisas bem cafonas. Colares masculinos de coquinho, por exemplo. Queimem, pessoal, queimem todos que aquilo é a representação máxima da cafonice. Mas enfim, voltemos ao índio e deixemos a digressão para outro dia. Lá estava o índio me chamando pra comprar colares. Não satisfeito, ele pegou colares e colocou-os em meu pescoço. Confesso que achei os colares bem bonitos, mas não significa que os usaria. Pergunto o que é "Jocana" e recebo como resposta "Tu é Jocana batxú".

Lindo.

Pra mim isso pode ser "Tu é uma baranga louca", "Tu é divina e graciosa", "Tu é branquela azeda", "Tu é delícia mas tá barrigudinha", "Tu é turista exploradora" - e por aí seguem as opções.

Finalmente fiquei sabendo que jocana = mulher e batxú = vistosa.

Ok, ok, aceitamos o elogio, muito grata. Agradeci e no momento em que ia devolver os colares ele pediu que eu tirasse uma foto com ele. E ainda acrescentou que eu poderia tirar a foto de graça, ele nem ia cobrar. Não entrarei em nenhum tipo de discussão sociológica. Não mesmo. Seguirei com meu relato. Pois bem, concordei em tirarmos uma foto. Foi quando senti um braço em volta de meu ombros. Era o índio, muito saliente, tentando me dar um aconchego na hora do clique. Fiquei super, super sem graça, mas tiramos a foto. Foi quando ouvi o seguinte:

- Olhe, jocana, jocana batxú, venha cá. Vou lhe ser sincero, porque eu sou sincero, sabe, honesto. Eu tenho uma jocana lá em casa. Minha jocana está lá em casa, 18 quilômetros daqui. Venho pra cá a pé todo dia e jocana fica em casa, cuidando das crianças. Mas então, olhe, eu tenho família, viu? Sou pai de família mesmo. Você é muito batxú, muito...

Eu estudei numa escola que ensinava canções indígenas. Eu sei cantar uma canção indígena até hoje, inteirinha. Com 14 anos eu sabia mais sobre os carajás que qualquer agente da FUNAI. Eu convivi com índios quando estudei nessa escola. Eu aprendi tupi-guarani (mas já esqueci). Toda uma abertura à cultura indígena, desde pequena. Mas xaveco de pataxó eu nunca, nunca tinha recebido. Sapequinha, né?



Aqui, eu, jocana batxú, e o rapaz saliente. Gostaria de avisar que não tenho uma árvore como membros inferiores, mas não quis expor minha figura biquinesca na medina da internet.

6 comentários:

Caco disse...

hahahaha
Adorei a história! Tu tá super "batxu" na foto! (hey, essa palavra tem potencial para virar gíria, não?)
bjs
CACO

Marco Aurélio disse...

Jocana batxú = Peteca

Srta.T disse...

Chu, AMEI essa sua canga de ÁRVOREZES. Me empresta?

(mimijando de rir com a fota)

Sheylla disse...

A FOTÓGRAFA DANDO DEPOIMENTO:
Realmente o Pataxó era muito abusado e a blogueira escondeu as pernas por pudor, pois tem pernas lindas! Foi um dia memorável e inesquecível!

surtei disse...

Pior que, na foto, ele parece aquele tiozinho que aparece no Pânico que não tem dentes. Inda bem que eu não tava junto, pq eu ia me mijar de rir na cara larga!

Daniele Silva disse...

Hoje passei por essa experiência maravilhosa aqui em Caraíva! Jocana, DOI assim que fui convidada para dançar em ritual indígena! Simplesmente maravilhoso!