segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Desabafos de uma professora

São duas coisas.

Eu gostaria muito que as pessoas entendessem o conceito de professor particular de idiomas. Vamos lá, eu sou didática, vou explicar direitinho: o professor vai até o seu local de trabalho. Ele prepara as aulas especialmente pra você. Ele te dá uma atenção exclusiva. Você não precisa ir até uma escola nem se adaptar a uma turma. Você não recebe um ensino pasteurizado de franquias e nem precisa engolir um capítulo de livro a cada duas aulas por causa do cronograma, porque não há um cronograma definido pelos donos da escola. O cronograma é definido de acordo com o seu ritmo. E, caso você tenha dificuldade em um ou outro tópico, o professor vai trabalhar sua dificuldade até que tudo esteja resolvido. Ele vai trazer materiais adicionais, exercícios adicionais, vai dançar o tchan em cima da mesa se assim for necessário. Só pra você, gatinha manhosa e gatinho maroto. É um ensino individualizado e completamente "tailor made". Ou seja, não deixa de ser um certo luxo.

Dito isso, preciso também esclarecer de uma vez: professores não trabalham por hobby. Eu sei, eu sei, uma hora e pouco em sua presença, em sua companhia, tendo o prazer de te ensinar não deveria ter preço. Mas, ops, tem. Porque por mais que professor, na maioria das vezes, trabalhe também por vocação e por amor ao que faz (meu caso), ele também precisa comer, pagar contas, ir ao cinema e viajar (também meu caso). Ou seja, se fosse pra ganhar pouco ou receber 50 reais por mês, eu trabalharia em alguma ONG no meio da favela ou em alguma creche fazendo trabalho voluntário (como já fiz durante 3 anos da minha vida). Sei que é uma grande surpresa que professores particulares precisem de dinheiro, afinal, que vida boa nós levamos, não é mesmo?

Acordar 5 da manhã, estar feliz antes das 7, estar sempre de bom humor, ter uma disposição que nunca acaba, planejar aulas, preparar aulas, dar aulas até 9 da noite - quem não quer essa vida? Eu faço o que gosto, eu escolhi essa profissão depois de muito penar pensando que eu trabalharia em nem sei o quê. Eu posso não ter estudado no exterior, mas eu estudei muito e me esforcei muito pra saber o que eu sei. Eu aprendi muito do que sei sozinha, porque quando comecei a me interessar por idiomas, especialmente o Inglês, eu não tinha dinheiro pra pagar nenhum curso. Nem Cultura, nem Pink and Blue, nem Fisk. Pra completar meus estudos, eu arrumei emprego numa escola de Inglês grande de São Paulo porque sabia que teria bolsa de estudos. Eu levo o que faço a sério e penso o tempo todo em como posso melhorar, que cursos eu posso fazer, como seria lindo se eu já estivesse seguindo carreira acadêmica na área. Por mais informal que eu seja, por mais que eu não tenha um lindo diploma da PUC ou da USP pendurado na minha parede, por mais que eu diga que não é fácil ser professora (e não é mesmo) eu gosto do que faço e faço direito.

É por isso que eu fico LOUCA da vida quando sou chamada numa empresa pra falar sobre aulas particulares e enfrento olhares de reprovação quando discutimos preço. Porque me sinto um produto, parece que as pessoas acham que eu tenho que ser altruísta e cobrar muito pouco porque, afinal, elas têm contas a pagar. Eu também tenho. Eu não vou a um médico e fico calculando quanto será que ele ganha por mês - coisa que fazem comigo freqüentemente. E eu não viro pra um profissional e falo: "nossa, mas você vai ganhar tanto, tá bom, não tá?", como se aquele profissional estivesse fazendo algo errado em cobrar pelo serviço que presta. O que me deixa mais puta dentro das calças é que eu sou camarada, eu negocio, eu renegocio, eu entendo a situação da pessoa, eu dou desconto. Não chego no lugar botando nenhum tipo de banca, não sou inflexível em nada do que faço. É por isso que me sinto desrespeitada quando alguém regateia o preço das aulas de maneira depreciativa, como se eu tivesse a orbigação de cobrar 10 reais a hora aula porque se eu cobrar mais eu vou ganhar dinheiro.

E é por causa do meu comprometimento com o que faço que fico também muito puta da vida quando alunos falam comigo como se eu não fizesse picas nenhuma da minha puta vida. Afinal, eu SÓ dou aulinhas. Tenho horários livres durante o dia, estou à inteira disposição da galera. E quando eu explico, calmamente, que não, não poderei adiantar a aula pra hora que a pessoa bem entender hoje porque eu tenho compromissos e aulas pra preparar, a pessoa me olha meio incrédula. Como se fosse má vontade minha. E quando eu, mais uma vez calmamente, que eu preciso preparar as aulas antes, enfrento outro olhar de incredulidade que, nem tão no fundo assim, diz "preparar o quê? Não é só chegar e abrir o livro"? Não, gata, não é. Não significa que eu fique horas preparando o que preciso, não significa que eu não sei do que estou falando. E sim, se necessário, eu sou uma improvisadora ótima, tiro leite de pedra se for necessário. Mas é muito melhor dar uma aula com tudo preparado, pensado e planejado.

Então, fica aí a dica a quem lê este blog e teve paciência para ler até aqui: se você quer aulas particulares, se você quer um tratamento individualizado, se você quer ter a certeza de que o professor não vai chegar na sua aula só com o livro sem nem ter dado uma olhada no que deve fazer, desculpe, mas você terá que não só respeitar o trabalho desse professor e entender que ele não dá aulas por hobby, como também pagar pelo serviço. Eu não concordo com o valor exorbitante que muitas escolas cobram, e esse foi um dos muitos motivos para eu me desvincular de uma. Mas eu também não concordo que as pessoas achem que 50 reais por mês pagam um mês de trabalho. Se é isso que você espera, melhor ir procurar alguma escola que ensine Inglês em 8 semanas. Você não vai aprender porra nenhuma, mas vai pagar o preço baixo que eles cobram e ainda vai sobrar pra cervejinha.

12 comentários:

David disse...

Também ouço muito essa de abaixar (e muito) o preço pelas revisões que costumo fazer para agências de propaganda ou para TCC de alunos desesperados. Tudo muito aviltante, e de gentinha que sempre pode pagar mais um pouco. Não à toa fico cada vez mais cínico com as pessoas, especialmente com aquelas que se fingem de boa praça e depois metem a faca por trás ou descombinam de uma hora para outra o que já estava acertado. Foda. Um beijo.

Luciano disse...

Eu também concordo que este tipo de serviço é, infelizmente, muito pouco apreciado do ponto de vista da remuneração. Pior ainda são aqueles alunos que, mesmo você oferecendo desconto, etc., ainda acabam faltando nas aulas e te deixam falando sozinho.
Bem, "courage, mon ami", é só o que posso dizer. Gostei muito de seu blog e da personalidade que parece emanar de suas palavras. Beijos.

Amber F. disse...

Acho que pude sentir um pouco da sua indignação - com toda razão - na nossa first class. Se for algum consolo, eu juro que não vou dar trabalho!!

simone disse...

tirando as profissões com um pouquinho mais de glamour (advogados, médicos, engenheiros, arquitetos), as pessoas não gostam de pagar pelo trabalho das outras e ponto. é um saco. por isso que eu larguei design: "tudo isso por uma marquinha? meu sobrinho faz por quinzão e uma fanta!"

fica com raiva do mundo não, chu! a vida é assim, mas a gente vai aprendendo a lidar com esse tipo de coisa e daqui a pouco você nem se estressa mais com esse tipo de comportamento de aluno mala!

Ludwig disse...

gata,

as pessoas não enxergam que 1 hora do dia ajudando alguém a aprender alguma coisa tem muito mais valor do que passar 8 horas fazendo porra nenhuma num emprego coxinha de merda. para depois das oito horas, botar banca no mundo e gastar toda a grana que ganha em baladas ruins, música ruim, vodca ruim, cerveja ruim, comida ruim e dar uma trepada ruim, porque, afinal, tabalho estressa.

me faltava talento para certas trivialidades do emprego e, no final, eu me investia de uma personalidade intelectual para prevenir certas coisas. eu ainda investia tempo em criar uma bullshit sistêmica que justificava o investimento para o cérebro coxinha. a mágica disso tudo é que as pessoas são ocupadas demais para prestarem atenção no que estão fazendo e nisso nós levamos muita vantagem - pois elas acreditam em tudo que a gente fala...

love,

f.

Marie disse...

isso ai, ta coberta de razão...dei aulas particulares de frances por um tempo...eu não curti muito...pagavam pouco, tipo 15 a hora aula, e cobravam 300 dos alunos...hello..mas enfim, acho que realmente as pessoas não valorizam o nosso conhecimento, seja em qual área for...ta mais do que certa!

~*Vica*~ disse...

Simone, na boa, ser advogado não tem glamour nenhum! Eu que o diga.
Chu, te entendo perfeitamente bem, mas meus dias de english "titcher" já foram, thank God!

simone disse...

ps: tô fazendo um zip com o "best of" fiona apple! assim que colocar num rapidshare da vida te aviso! :D

simone disse...

vica, eu sei... larguei design pra estudar direito hahahaha ^^
mas ainda tem aquela "aura" de "meu filho passou em direito, vai ser doutor e se dar bem na vida".


ps: inflacionei seus comentários, chu!!!

Felipe Lobo disse...

Eu conheço bem a realidade de professor. Sou filho de pai e mãe professores. Mas imagino que quem é particular, como você, deva sofrer infinitamente mais.
Até porque tem daquelas de a pessoa dizer que dá aulas e o interlocutor perguntar: "e vc trabalha também?".
Indiquei um professor particular de francês para uma amiga. Ela achou preço absurdo. Passei a maior vergonha, dos dois lados.

PS: excelente blog. Será que a Suzana só tem amigas que escrevem bem pra caralho?

Srta.T disse...

Sou advogada, pobre, mas garanto que glamour eu tenho.
Baldes de glamour!

Monica disse...

Nunca um texto alheio me caiu tão bem quanto este seu. Passo pela mesma situação, pois as pessoas entendem que sendo eu uma psicóloga, deveria me preocupar com o bem-estar do que com o quanto recebo. É CLAAARO que me preocupo com o bem-estar dos demais, mas também (surpresa!!!)preocupo com o meu, e isso envolve dinheiro... Cansei de ver olhos arregalados quando passo o preço que - como assim??? - é por sessão; assim como já perdi as contas de quantos fiz a primeira entrevista que ficou só nisso, porque eles fogem quanto discutimos o quanto a ser pago...
É, Chu, são os ossos de nosso liberal ofício...